Bebê Clínica - Projetos
Programa Educativo e Preventivo de Promoção de Saúde Bucal para Crianças de 0 a 3 anos
1.0- Introdução
Apesar da preocupação quanto aos cuidados odontológicos em bebês terem sido divulgados no início do século passado, apenas recentemente eles começaram a receber uma atenção maior por parte dos cirurgiões-dentistas, no Brasil e em outras partes do mundo, devido à alta prevalência de cárie observada em crianças de tenra idade .
Em um levantamento epidemiológico de cárie utilizando o índice ceo-d, foi observado uma prevalência de 8,92% de cárie entre as crianças de 0 a 1 ano; já nas faixas etárias entre 1 a 2 anos e 2 a 3 anos, foram respectivamente 34,50% e 66,50%1. Assim como este, outros trabalhos mostraram este grande aumento da prevalência de cárie após o primeiro ano de vida3,6, o que justifica o início da atenção odontológica ainda neste período.
Baseados nesta realidade, um grupo de professores de Odontopediatria da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolveu um projeto destinado ao atendimento odontológico desde o primeiro ano de vida, surgindo assim a Bebê-Clínica da UEL que foi inaugurada no ano de 1986. O conceito de Odontologia para Bebês, que era de tratamento dentário curativo precoce, mudou para atenção precoce educativa-preventiva, visando à manutenção de saúde bucal10. Estes conceitos foram difundidos pelo Brasil, prova disto é a implantação de programas de assistência odontológica para bebês em todo o país, como a Bebê-Clínica da Faculdade de Odontologia de Araçatuba-UNESP que iniciou suas atividades em 1996.
Segundo um estudo realizado pela Bebê-Clínica da UEL, os melhores resultados ocorrem quando a atenção se inicia por volta dos 6 meses, sendo que o limite de segurança para a atenção precoce é aos 12 meses de idade. Para as crianças que iniciaram o atendimento no primeiro ano de vida, a redução média da prevalência da cárie, em quatro anos de acompanhamento, foi de 85%, assim como diminuiu a gravidade das lesões cariosas, reduzindo as necessidades curativas.
É importante salientar que prevenir qualquer doença requer procedimentos de menor complexidade e a mão-de-obra não necessita ser altamente qualificada, fatores estes que tornam o custo da prevenção “Per Capta” mais barato do que do tratamento restaurador, considerando ainda o enorme benefício para a população, uma vez se tratando de saúde.
O êxito alcançado pelos programas de atenção precoce à Saúde Bucal, incluindo uma prolongada ausência de cáries em crianças que recebem cuidados desde os primeiros meses de vida, sugerem que este pode ser um grupo importante, onde é possível a organização de programas coletivos de Promoção de Saúde Bucal, ao nível do serviço público e clínica particular.
2.0 – Fundamentos da Assistência Odontológica para Bebês
Assistência precoce – iniciar por volta dos 6 meses de vida.
Manutenção da Saúde X Prevenção da Doença.
Determinação e controle dos fatores de risco.
Abordagem educativa – Pais.
Abordagem preventiva – Filhos.
3.0 - Objetivos
3.1 – Objetivo Geral:
Oferecer assistência odontológica integral a crianças de 0 à 3 anos de idade, através de um programa de Saúde Bucal que permita, através do processo educativo aos pais e pacientes, diagnosticar, prevenir, tratar e controlar as situações mais comuns nesta faixa etária (cárie, traumatismo, alterações de desenvolvimento, etc).
3.2 – Objetivos Específicos:
a ) Atendimento odontológico visando a manutenção e promoção da saúde e a prevenção de cárie.
b) Conscientização dos pais ou responsáveis a respeito da importância de um trabalho preventivo precoce para melhorar a Saúde Bucal e também a qualidade de vida das crianças.
c) Disseminar o conceito de Saúde Bucal como um direito e cidadania, com ênfase na atenção precoce (a partir do nascimento) e no autocuidado.
d) Desenvolver no profissional novos conhecimentos pela integração com outras áreas da saúde (medicina, psicologia, fonoaudiologia, nutrição, etc).
e) Orientações quanto aos tipos de traumatismos dentários, seu manejo e possibilidades de prevenção.
4.0 –Verificação atual das condições da saúde bucal:
Inicialmente deve-se realizar um levantamento epidemiológico para se conhecer a realidade odontológica da população alvo do projeto através do índice de prevalência de cárie (ceo) e realizar avaliações periódicas para estabelecer a eficácia ou não do programa.
5.0 – Fases Técnicas do Projeto
5.1 – Implantação do Projeto:
Contratação de pessoal para constituir a equipe de trabalho, se necessário.
Treinamento da equipe.5.2 – Implementação do projeto:
Início: imediatamente após a Fase de Implantação.
Divulgação do programa atingindo as maternidades, obstetras, pediatras e dentistas da região e toda a população.
Agendamento e execução de palestras direcionadas aos pais.5.3 – Funcionamento do Projeto:
Início: imediatamente após a Fase de Implementação.
Execução de um protocolo de atendimento
6.0 – Operacionalização
Existem dois tipos de ações:
a) Coletivas: tem como objetivo suprir as necessidades de orientação dos pais, (que são o sujeito destas ações) quanto à importância do atendimento, comparecimento às consultas e continuidade do programa em casa.
b) Individuais: objetivam definir os fatores de risco, de forma a eliminá-los ou controlá-los.6.1 – Estratégias de divulgação do programa e encaminhamento dos bebês para o atendimento.
Inicialmente, as maternidades, obstetras e pediatras serão orientados a respeito do projeto e de sua importância, incentivado-os a encaminhar os bebês para que sejam matriculados no programa. Esta abordagem será feita através de cartazes, folders e folhetos explicativos, bem como através de visitas aos consultórios médicos.
Divulgar o programa nas emissoras de rádio, T.V., jornais e comunidades de bairros, para amplo conhecimento e participação da população.
6.2 – Protocolo de Atendimento:
6.2.1 - Reunião de pais
Deverá ser realizada mensalmente com o objetivo de esclarecer, de forma geral, sobre:
Saúde bucal no contexto da saúde geral.
Importância da dentição decídua.
Hábitos de sucção não nutritivos (polegar e chupeta).
Traumatismo: tratamento e o que fazer.
Cárie como doença e possibilidade de prevenção.
Cárie de mamadeira.
Prevenção da cárie dentária.
Atendimento profissional X Tratamento em casa.
Funcionamento da Bebê-Clínica.
Ao final das reuniões as mães assistirão uma demonstração de como realizar a higiene bucal e utilizar o flúor, e a seguir será agendada a primeira consulta da criança.6.2.2 - Primeira consulta (consiste em):
Anamnese
Exame clínico geral avaliando a saúde do bebê como um todo. Caso necessário, encaminhamento a profissionais de outras áreas de saúde.
Determinação do risco de cárie, através do método clínico-anamnésico, nos fatores ambientais.a) Relação da dieta: amamentação noturna, consumo de alimentos cariogênicos.
b) Relação de higiene: presença de placa bacteriana visível, presença e qualidade da higiene.
c) Utilização de fontes de Flúor.
d) Grau de saúde e higiene bucal dos pais. (especialmente da mãe).Avaliação clínica bucal.
Orientações educativas específicas serão oferecidas às mães de acordo com as necessidades - risco de cárie do bebê.
De acordo com o risco de cárie, o bebê receberá um tipo de tratamento.
RISCO INDETERMINADO- O tratamento consiste em quatro consultas consecutivas, com intervalo de uma semana.
Objetivo: manutenção da saúde bucal.Na clínica: Higiene com água oxigenada diluída (uma parte de H2O2 + três partes de água fervida ou filtrada) e aplicação tópica de NaF 0,1% com hastes flexíveis (4 gotas em cada ponta, sendo com uma aplica-se nos dentes superiores e com a outra nos inferiores).
Em Casa: A mãe deve manter os mesmos padrões de dieta e higiene, e acrescentará aplicações tópicas diárias de solução de NaF 0,05% com hastes flexíveis , como descrito anteriormente, à noite antes de dormir.
Retornos: Após uma semana da primeira consulta, a mãe fará a higiene bucal do bebê e a aplicação de flúor, sob supervisão profissional, a fim de avaliar se os procedimentos estão sendo realizados corretamente e corrigir eventuais falhas.
RISCO DETERMINADO- Tratamento com quatro consultas com intervalo de uma semana.
Objetivos: reversão do risco de cárie e aumento da resistência do dente.Na Clínica:
a) Identificação e Reversão dos fatores de risco de cárie - nas quatro consultas a mãe será inquirida sobre o controle dos fatores de risco e orientada como fazê-lo.
b) Aumento da resistência do dente – higiene com solução de H2O2 diluída e gaze; aplicação de NaF 0,1% sobre as superfícies dentáriasEm Casa: A mãe vai interpor medidas de higiene e controle de dieta, mais aplicação diária de NaF 0,05%.
Retornos: Na segunda consulta, solicitamos que a mãe faça a higiene bucal do bebê e aplique o flúor, a fim de avaliarmos se os procedimentos estão sendo realizados corretamente e corrigir possíveis falhas. Verificar se os fatores de risco estão sendo eliminados ou reduzidos. Após o controle dos fatores de risco, o retorno será bimensal.
BEBÊS COM ATIVIDADE/ LESÃO DE CÁRIE- Tratamento de choque com quatro consultas em intervalos de uma semana.
Objetivos: Reequilibrar o ambiente bucal, eliminando ou reduzindo os fatores causais e aumentar a resistência do dente.Na Clínica-Tratamento de choque:
a) Ação sobre os fatores causais- Nas quatro consultas a mãe será orientada sobre como eliminar ou reduzir os fatores em casa.
b) Aumento da resistência do dente- Higiene com solução de H2O2 diluída e gaze; aplicação de verniz fluoretado sobre as superfícies dentárias com manchas brancas e tecido cariado amolecido.
c) Realização da técnica da restauração atraumática com Cimento de Ionômero de Vidro.Em Casa- A mãe vai interpor medidas de higiene e controle de dieta, mais aplicação diária de NaF 0,05%.
Retornos- Após o tratamento de choque e observação da melhora do quadro, será determinado o período ideal para cada caso. Na segunda consulta, solicitamos que a mãe faça a higiene e aplique flúor, a fim de avaliarmos se os procedimentos estão sendo realizados corretamente e corrigir possíveis falhas.
Independente do risco de cárie do bebê, periodicamente deverá ser feita a reavaliação do risco, e se necessário instituir o tratamento adequado.
6.3- Orientações Direcionadas:
Aos médicos com a finalidade de incentivá-los a conscientizar os pais e/ou responsáveis pelas crianças da importância do Programa de Prevenção.
Aos dentistas orientando em relação ao programa e esclarecendo dúvidas, destacando sua fundamental importância para o sucesso do mesmo.
Aos pais, destacando a sua responsabilidade quanto ao comparecimento nos retornos agendados, à execução do programa em domicílio, motivando-os em seu papel de sujeito responsável pela saúde bucal dos seus filhos, à medida que introduzem o hábito de higienização da boca do bebê e evitam a instalação de hábitos bucais deletérios. Bem como, da importância do restabelecimento e manutenção de sua própria saúde bucal.
7.0 – Recursos Necessários
Para o estabelecimento do Projeto, serão necessários provimentos de recursos materiais e humanos. É necessário destacar que o Projeto é de custo baixo, simples, de fácil aplicação e perfeitamente acessível quanto às técnicas utilizadas.
7.1 –Para a montagem da clínica:
7.1.1 - Equipamentos necessários
Os equipamentos listados não são indispensáveis, pois a filosofia da assistência é educativa/ preventiva e o atendimento do bebê pode ser realizado na técnica joelho-a-joelho.
Macri (maca para atendimento do bebê).
Refletor.
Aparelho de Raio-X.
Equipo Odontológico.
7.1.2 – Instrumentais:Pinça.
Sonda.
Espelho.
Pote Dappen.
Escovas Robson.
Micromotor com contra-ângulo.Para o caso de necessidades restauradoras:
Escavador de dentina.
Espátula para inserção de Cimento de Ionômero de Vidro.
Espátula para manipulação do Cimento de Ionômero de Vidro.
Placa de Vidro.7.1.3 – Materiais de consumo:
Hastes Flexíveis.
Gaze.
Fio dental.
Solução de água Oxigenada diluída.
Solução de NaF 1%.
Solução de NaF 0,1% para oferecer às mães.
Pasta profilática.
V.A.S.A.
Verniz Fluoretado.
Pincéis descartáveis para aplicação do verniz fluoretado.
Cimento de Ionômero de Vidro.
Roletes de Algodão.7.2 – Para o Programa Educativo:
Os recursos abaixo relacionados são sugestões oferecidas, cabe à pessoa responsável pelo programa estabelecer a abordagem mais adequada à sua realidade.
7.2.1 – Recursos necessários para a divulgação do projeto:
Cartazes, folders e folhetos informativos.
7.2.2 – Recursos necessários para a palestra direcionada aos pais:
Projetor de Slides ou Multimídia
Vídeo-cassete e televisor.
8.0 – Avaliação
Com o intuito de verificar se as metas do Projeto estão sendo alcançadas, será realizada uma avaliação anual, onde será feito um novo índice de ceo, que deverá ser comparado com o índice inicial.
9.0 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. BONECKER, M.J.S.; GUEDES-PINTO, A.C., WALTER, L.R.F.Prevalência,distribuição e grau de afecção de cárie dentária em crianças de 0 a 36 meses de idade. Rev. Ass. paul. cirurg. Dent., v.51, n.6, p.535-40, nov/dez. 1997.
2. CUNHA, R.F. et al; Dentistry for babies: a preventive protocol. J. Dent. Child v.67,n.2, p.89-92, Apr. 2000.
3. DIAS, D.A.M.; et al. Levantamento epidemiológico da cárie dental em crianças de 0 a 5 anos na região urbana do Distrito Federal, no ano de 1993. Rev. de Saúde do Distrito Federal,v.6, n.1, p.21-6, jul/set. 1995.
4. MELHADO, F.L.; CUNHA, R.F.; NERY, R.S. Influence of Dental Care for Infants on Caries Prevalence: A Comparative Study. J. Dent. Child., v.70, n.2, p.120-3, May/Aug. 2003.
5. MELHADO, F.L. Avaliação de um programa de prevenção aplicado em crianças de 5 a 8 anos de idade provenientes da Bebê-Clínica da F.O.A.- UNESP. Araçatuba, 2003, 127p. Tese (Doutorado em Odontopediatria) Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Universidade Estadual Paulista.
6. PAULA, M.P.G.; DADALTO, E.C.V. Prevalência de cárie em crianças de 0 a 36 meses de idade. Rev. ABO Nac., v.8, n.2, p.86-91, abr/maio 2000.
7. PINTO, V.G. Saúde Bucal Coletiva. 4.ed. São Paulo. Ed. Santos. 2000.
8. SGAVIOLI, C.A.P.P; et al. Projeto de atenção odontológica para bebês: "Bebê Sorriso". U.S.C. Bauru, SP. 1999.
9. VALLE, A.A. L et al. Programa Municipal de Saúde Bucal. Secretaria Municipal da Saúde. Bauru, SP. 2000.
10. WALTER, L.R.F.; SCARPELLI, B.B.; ICIOLI,S.R. Programa de atenção precoce à Saúde Bucal: Odontologia para bebês. Bebê Clínica, U.E.L. Londrina, PR. 1996.
11. WALTER, L.R.F.; FERELLE, A.; ISSAO, M. Odontologia para o Bebê. São Paulo, Ed. Artes Médicas, 1999.