Apresentação

Desde o século XVI, com a visão cartesiana do mundo, o ser humano vem se separando da natureza, sendo negligenciadas suas relações nos diversos âmbitos da vida. Renée Descartes propôs a divisão entre corpo e mente, levando a um abandono das íntimas correlações entre estes e o meio ambiente. Isto teve repercussão nos paradigmas das ciências, sociedade, cultura, economia, educação, psicologia e saúde, conduzindo a um pensamento e prática reducionistas e mecanicistas da realidade.
Na ciência relacionada à saúde, as pesquisas foram direcionadas considerando o corpo humano como uma máquina que pode ser analisada em termos de suas peças; onde a doença é vista como mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são estudados sob o ponto de vista da biologia celular e molecular. Essa tendência tomou força através de muitos pesquisadores, dentre eles: Rudolf Virchow, que postulou que todas as doenças envolviam mudanças estruturais ao nível celular; Louis Pasteur, que demonstrou a correlação entre bactéria e doença; Robert Koch, que descreveu um conjunto de critérios necessários para provar, de maneira conclusiva, que um certo microrganismo é o causador de uma doença específica.
Porém, analisando os vários fatores que influenciaram a mortalidade causada por infecções até os meados do século XIX, McKeown mostrou muito claramente que a intervenção médica foi um fator muito menos importante do que outros. Todas as principais doenças infecciosas tinham atingido seu auge e declinado muito antes de serem introduzidos os primeiros antibióticos eficazes e as técnicas de imunização. Essa ausência de correlação entre a mudança de tipos de doença e a intervenção médica também encontrou impressionante confirmação em numerosos experimentos em que as modernas tecnologias médicas foram usadas sem êxito para melhorar a saúde de várias populações subdesenvolvidas. A conclusão a ser extraída desses estudos parece ser que as intervenções biomédicas, embora extremamente úteis em emergências individuais, têm muito pouco efeito sobre a saúde de populações inteiras. A saúde dos seres humanos é predominantemente determinada, não por intervenção médica, mas pelo comportamento, pela alimentação e pela natureza e qualidade do seu meio ambiente.
Esses pensamentos mecanicistas e pesquisas reducionistas atingiram transversalmente as áreas da saúde, influenciando o enfoque e a prática frente às morbidades, onde os autores concentram suas explicações nos mecanismos das doenças, e não em suas verdadeiras origens. Pois, para que possamos conhecer a etiologia de uma determinada doença, devemos perguntar o “por que” de seu aparecimento, e não “como” ela se desenvolve. Não devemos abordar apenas os fatores envolvidos nos mecanismos da doença, mas também os fatores que alteram a relação destes últimos, ou seja, os fatores comportamentais com todas suas dimensões psicológicas, culturais, sociais, políticas e econômicas. Um enfoque holístico terá de encarar a saúde a partir dessa ampla perspectiva, distinguindo claramente as origens das doenças e suas manifestações. Caso contrário, não terá muito sentido discorrer sobre terapias coroadas de êxito, principalmente pelo fato de existir uma forte relação entre os aspectos psicossomático-ambientais e alguns hábitos e estilos de vida que atuam diretamente no aparecimento das doenças e desordens.
Dados preocupantes divulgados em 2009 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) corroboram esta linha de pensamento. Segundo Departamento de Saúde Mental do Órgão, até 2030 depressão será a morbidade mais comum no planeta. Este tipo de morbidade ocorre em situações que não necessariamente vinculam-se a problemas somáticos e sim à consequência de situações estressantes crônicas, ou seja, o ambiente social torna-se fator fundamental para seu desenvolvimento. A OMS ainda define a situação como “epidemia silenciosa” com aumento consistente de incidência e diagnostica que os países em desenvolvimento serão os mais afetados pelo problema pelo número de casos ao mesmo tempo pela falta de recursos para lidar com o quadro.
Conhecendo-se a interdependência da forma de como um organismo individual está inserido em seu ambiente social, a maneira como o indivíduo reage a esta situação, que pode ser estressante, e a influência destes em seus hábitos, torna-se lógico atuar terapeuticamente de forma integral para que a saúde seja estabelecida de uma forma mais ampla, e não apenas fisicamente.
A promoção de saúde, no contexto de uma abordagem psicossomática-ambiental, consiste, além da terapêutica biomédica tradicional, em aconselhamentos psicológicos procurando atuar de maneira positiva no sistema corpo/mente/ambiente de tal forma a inverter os fatores atuantes nas doenças.
Desta forma, torna-se essencial o estabelecimento de uma assistência combinada, com a intenção de integrar os avanços tecnológicos e aspectos humanos em busca do estabelecimento do equilíbrio do paciente através de ações terapêuticas e preventivas sob este prisma.